No dia 16 de março, uma publicação circulou nas redes sociais com uma citação atribuída a Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, descrita como “comentário após agressões a jovem branco”. O logótipo aposto ao vídeo imitava o grafismo de um órgão de comunicação. A citação é falsa. O contexto é fabricado. E a ligação a qualquer incidente recente foi inventada.
Dias depois, o SOS Racismo recebeu um email formal exigindo “esclarecimento formal e inequívoco” sobre as referidas declarações, com invocação do artigo 240.º do Código Penal e ameaça de participação ao Ministério Público.
Esta cadeia de eventos não é uma coincidência. Compreender como essa cadeia funciona é condição para não ser definido por ela.
Primeiro elo: a produção de conteúdo falso
A publicação foi produzida por uma conta criada em outubro de 2024, com menos de dois mil subscritores no YouTube, que se apresenta como “profissional credenciado” a conduzir “investigações com total isenção e imparcialidade”. O conteúdo recorre a grafismo que imita imprensa legítima, a legendas com tom de reportagem e a um enquadramento temporal fabricado que soa plausível. O formato cria a aparência de facticidade sem a substância.
A citação atribuída a Mamadou Ba nesta publicação não é real. As declarações que existem — proferidas em novembro de 2020, numa conferência académica sobre discurso de ódio, citando o filósofo Frantz Fanon — foram verificadas em 2020 pelo Polígrafo, que as classificou como “falta de contexto: conteúdos que podem ser enganadores sem contexto adicional”. A formulação que circula agora é uma versão adulterada dessas declarações, com contexto fabricado e atribuição falsa.
Segundo elo: a amplificação
Este tipo de publicação raramente ganha tração por si só. A investigação portuguesa sobre desinformação descreve o mecanismo com precisão: o “efeito trompete”.
“A desinformação começa num sítio relativamente pequeno, não tem grande impacto, mas a partir do momento em que algum ator político ou não político com grande alcance pega nessa desinformação e a reproduz, propaga ou amplifica, ela ganha uma relevância muito maior.” — José Moreno, investigador do MediaLab/ISCTE, em entrevista à Lusa, abril de 2025
O caso que se tornou referência em Portugal foi documentado na pré-campanha das legislativas de março de 2024: uma publicação numa conta desconhecida afirmava que a caravana de André Ventura fora recebida a tiros em Famalicão. Era falsa — tratava-se de rateres de motas. Depois de partilhada por um deputado do Chega, a publicação teve 1700 visualizações. Quando o partido e o seu presidente a amplificaram, chegou a um milhão. A correção feita por fact-checkers quatro horas depois não teve impacto comparável.
Fonte: MediaLab/ISCTE, relatório sobre desinformação nas legislativas de 2024, em parceria com a CNE e a Lusa
O mesmo padrão foi identificado e documentado no relatório “Legislativas 2025 — Informação e Desinformação nas Redes Sociais”, publicado pelo OberCom no âmbito do IBERIFIER, o Observatório Ibérico de Media Digitais financiado pela Comissão Europeia:
“O partido Chega e André Ventura são os atores políticos que conseguem um melhor desempenho em captar a atenção dos utilizadores de redes sociais. Entre 2024 e 2025 aumentou em mais de 200% o número de publicações sobre imigração no Facebook em Portugal. Grande parte dos episódios de desinformação detectados inscrevem-se nas narrativas de que “Portugal está a ser invadido” e de que existe um processo de “islamização” em curso.” — Cardoso, Moreno et al., OberCom/IBERIFIER, 2025
A infraestrutura de contas falsas
Por trás desta amplificação existe uma infraestrutura documentada. Em maio de 2025, a CNN Portugal e a TVI publicaram os resultados de uma investigação encomendada à empresa Cyabra, especializada em deteção de contas inautênticas com recurso a inteligência artificial:
“58% dos perfis que comentaram na conta oficial do Chega no X foram identificados como falsos. Em muitos casos, perfis falsos operavam simultaneamente nas secções de comentários de contas rivais, atacando a sua credibilidade enquanto inseriam mensagens pró-Chega, criando efetivamente a ilusão de apoio popular.” — Cyabra, relatório “Vozes falsas, votos reais”, para CNN Portugal e TVI, maio de 2025
A investigação identificou 90 perfis falsos que participaram simultaneamente em campanhas contra o PS e o PSD e em campanhas de promoção do Chega, “evidenciando uma estratégia coordenada para influenciar o discurso político”.
Fonte: Cyabra/CNN Portugal/TVI, maio de 2025
Terceiro elo: a institucionalização
A desinformação raramente fica na rede. O terceiro momento desta cadeia é a sua conversão em pressão institucional: uma carta formal, com papel timbrado, linguagem jurídica, invocação de normas constitucionais e penais, dirigida a uma organização da sociedade civil.
Esta transformação cumpre uma função precisa: eleva uma mentira ao estatuto de controvérsia legítima. Uma organização que responde parece estar a defender-se de algo; uma que não responde pode ser descrita como recusando prestar contas. A escolha é armadilhada por construção.
O uso de instrumentos jurídicos e institucionais como forma de pressão política contra organizações que trabalham pelos direitos humanos tem um nome na literatura internacional: “lawfare”, ou litigância estratégica. Não requer procedimentos judiciais reais — basta a ameaça, o registo documental, o custo que impõe a quem recebe.
Terceiro elo: a institucionalização
A desinformação raramente fica na rede. O terceiro momento desta cadeia é a sua conversão em pressão institucional: uma carta formal, com linguagem jurídica, invocação de normas constitucionais e penais, dirigida a uma organização da sociedade civil por um membro eleito do Chega.
O email que o SOS Racismo recebeu tem o formato de uma comunicação institucional séria. Usa linguagem jurídica, cita o artigo 13.º da Constituição e o artigo 21.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, formula “exigências” numeradas e assina com cargo público. O problema é que a sua premissa factual — as “declarações” que pretende ver esclarecidas — é uma citação fabricada, verificada como falsa.
Esta transformação cumpre uma função precisa: eleva uma mentira ao estatuto de controvérsia legítima. Uma organização que responde parece estar a defender-se de algo; uma que não responde pode ser descrita como recusando prestar contas. A escolha é armadilhada por construção.
O mecanismo tem precedentes documentados. O uso de instrumentos jurídicos e institucionais como forma de pressão política contra organizações que trabalham pelos direitos humanos — aquilo que a literatura internacional designa por “lawfare” ou litigância estratégica — não requer procedimentos judiciais reais. Basta a ameaça, o registo documental, o custo que impõe a quem recebe.
O email recebido pelo SOS Racismo não tem base legal que obrigue a qualquer resposta. Um eleito local não tem poder de escrutínio sobre associações da sociedade civil. A invocação do Ministério Público como ameaça não tem, neste contexto, efeito jurídico vinculativo. O que tem é efeito político: cria um registo, gasta tempo e energia de quem o recebe, e alimenta a narrativa de que há algo a esclarecer.
Não há.
Não é um fenómeno português
A ligação entre populismo de direita radical e desinformação sistemática está documentada a nível europeu e internacional. Em 2024, um estudo neerlandês publicado e amplamente citado na imprensa portuguesa analisou todas as publicações de deputados no Twitter em 26 países entre 2017 e 2022:
“Os populistas de direita radical estão a utilizar a desinformação como uma ferramenta para desestabilizar as democracias e obter vantagens políticas. A desinformação favoreceu menos os populistas de extrema-esquerda, que incidem mais nas queixas económicas, do que os populistas da direita radical que enfatizam as queixas culturais e a oposição às normas democráticas.” — Petter Törnberg, Universidade de Amesterdão, 2024, citado pela RTP
Em Portugal, um relatório da SmartVote concluiu de forma convergente que “os partidos de extrema-direita, particularmente o Chega em Portugal e o Vox em Espanha, são as principais fontes de desinformação”, com temas predominantes de fraude eleitoral, corrupção e imigração.
Fonte: SmartVote, relatório publicado em maio de 2025; Público, 29/05/2025
O Observatório Europeu dos Media Digitais (EDMO) identificou Portugal como epicentro europeu da desinformação sobre imigração em julho de 2025, num relatório que ligou explicitamente essa dinâmica à actividade do Chega na Assembleia da República.
Fonte: EDMO; Público, 22/08/2025
O padrão verificado
O historial documentado pelo Polígrafo e outros órgãos de verificação de factos credenciados pela International Fact-Checking Network é extenso e consistente:
Em agosto de 2025, André Ventura repetiu em entrevista à CNN Portugal que filhos de imigrantes têm prioridade no acesso às escolas portuguesas. O Polígrafo classificou a afirmação como falsa — tratava-se da mesma alegação que o mesmo órgão já desmentira dois anos antes. Nesse mesmo mês, a deputada Rita Matias divulgou nas redes sociais nomes de crianças imigrantes matriculadas numa escola de Lisboa; Ventura leu esses nomes em plenário da Assembleia da República. O Ministério Público abriu inquérito. Ventura admitiu não ter verificado se as crianças tinham ou não nacionalidade portuguesa.
Fonte: Polígrafo, agosto de 2025; Euronews Portugal, agosto de 2025; Público, julho de 2025
Em 2023, Ventura partilhou uma imagem com o grafismo da Rádio Renascença noticiando “milhares de inscritos na JMJ desaparecidos”. A Renascença negou qualquer ligação ao conteúdo. A notícia nunca existiu. A publicação não foi removida.
Em 2022, partilhou dados sobre imigração em Lisboa confundindo sistematicamente os números da cidade com os da Área Metropolitana, inflacionando as estimativas em cerca de 500%. A publicação não foi corrigida.
Fonte: Polígrafo, “De falso em falso”, agosto de 2023
Em todos estes casos, o padrão é o mesmo: afirmação falsa ou gravemente descontextualizada, amplificação rápida, impacto superior ao da correção posterior.
“Nas duas últimas eleições, houve mais desinformação veiculada pelo líder do Chega do que pelos líderes dos outros partidos.” — Gustavo Cardoso, coordenador do MediaLab/ISCTE, abril de 2025
O que isto revela
A cadeia que atingiu o SOS Racismo em março de 2026 não é excepcional. É um circuito que se repete, com variações, em múltiplos alvos: organizações antirracistas, jornalistas, partidos de esquerda, figuras públicas que contestam narrativas da extrema-direita. O alvo não é aleatório: desacreditar quem denuncia é uma forma eficaz de desacreditar a própria denúncia.
“Quando digo alguma coisa, ela é retirada do contexto e aproveitada para construir uma narrativa falsa, transmitindo a ideia de que sou uma ameaça, um perigo para a democracia. É o modus operandi da extrema-direita, não só em Portugal, mas nos Estados Unidos e no Brasil.” — Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, em TVI Notícias
A investigadora Miguel Crespo (OberCom) nota que a desinformação existe em todos os quadrantes políticos, mas que “de forma sistemática e organizada, a desinformação vem, maioritariamente, da extrema-direita”.
Fonte: TVI Notícias, “Os corredores da desinformação em Portugal”
Identificar o mecanismo publicamente é recusar que ele opere em silêncio.
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Texto elaborado pelo Movimento SOS Racismo, março de 2026.
Fontes verificadas: Polígrafo (IFCN), OberCom/MediaLab ISCTE, CNN Portugal, Lusa, Público, Cyabra/CNN Portugal/TVI.
Lista de fontes verificadas
1. Fact-checking — Polígrafo (IFCN)
Declarações de Mamadou Ba descontextualizadas (novembro 2020) https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mamadou-ba-disse-que-nos-temos-e-que-matar-o-homem-branco
André Ventura — filhos de imigrantes e prioridade nas escolas (falso, agosto 2025) https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/andre-ventura/
“De falso em falso” — dezena de mentiras não removidas (JMJ, Lisboa/Área Metropolitana, Livre) (agosto 2023) https://poligrafo.sapo.pt/politica/de-falso-em-falso-uma-dezena-de-mentiras-sinalizadas-pelo-poligrafo-que-andre-ventura-nao-apagou/
2. MediaLab/ISCTE — estudos sobre desinformação eleitoral
Relatório “Legislativas 2025 — Informação e Desinformação nas Redes Sociais” (OberCom/IBERIFIER) https://www.obercom.pt/legislativas-2025-informacao-e-desinformacao-nas-redes-sociais/
“Chega tem sido um trompete da desinformação” — CNN Portugal (entrevista a José Moreno, abril 2025) https://cnnportugal.iol.pt/andre-ventura/fake-news/chega-tem-sido-um-trompete-da-desinformacao-em-portugal/20250424/6809db69d34ef72ee4452379
Alegada fraude eleitoral potenciada pelo Chega atingiu 733 mil pessoas — Observador (março 2024) https://observador.pt/2024/03/07/alegada-fraude-potenciada-pelo-chega-no-x-atingiu-mais-de-733-mil-pessoas-diz-estudo-do-iscte/
“Imigração foi o principal alvo das campanhas de desinformação antes das legislativas” — Público (junho 2025) https://www.publico.pt/2025/06/21/politica/noticia/imigracao-tema-explorado-campanhas-desinformacao-legislativas-2137424
3. Cyabra / CNN Portugal / TVI — contas falsas
“São falsas 58% das contas no X que promovem o Chega” (maio 2025) https://cnnportugal.iol.pt/redes-sociais/chega/investigacao-sao-falsas-58-das-contas-no-x-que-promovem-o-chega/20250516/6826b94fd34e3f0bae9e39ce
4. SmartVote / OberCom — relatório ibérico
Relatório completo (acesso livre, DOI zenodo) https://www.obercom.pt/uma-perspetiva-iberica-a-desinformacao-e-a-sua-detecao-nas-redes-sociais-em-contexto-eleitoral-em-espanha-portugal-e-ue/ Referência completa: Paisana et al. (2025), SmartVote/Cibervoluntarios, coord. OberCom.
Cobertura jornalística — Observador (maio 2025) https://observador.pt/2025/05/28/chega-e-das-principais-fontes-de-desinformacao-eleitoral-segundo-relatorio-da-smartvote/
Cobertura jornalística — Lusa/Combate Fake News (maio 2025) https://combatefakenews.lusa.pt/relatorio-chega-e-das-principais-fontes-de-desinformacao-eleitoral/
5. EDMO — Portugal e desinformação sobre imigração
Portugal epicentro europeu em julho 2025 — Euronews Portugal (agosto 2025) https://pt.euronews.com/my-europe/2025/08/22/desinformacao-sobre-imigracao-bate-recorde-com-a-contribuicao-de-portugal
Mesma notícia — RTP (agosto 2025) https://www.rtp.pt/noticias/politica/desinformacao-sobre-imigracao-bate-recorde-com-ajuda-de-portugal_n1678479
Chega e Vox alinhados — Público (junho 2025) https://www.publico.pt/2025/06/30/politica/noticia/chega-vox-alinhados-desinformacao-imigracao-conclui-relatorio-2138400
6. Estudo europeu — extrema-direita e desinformação
Törnberg/Universidade de Amesterdão — “Quando é que os partidos mentem?” — RTP (fevereiro 2025) https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ferramenta-de-desestabilizacao-estudo-revela-que-direita-radical-lidera-tendencia-de-espalhar-desinformacao_n1633644
7. Inquérito do MP — Ventura e Rita Matias
Euronews Portugal (agosto 2025) https://pt.euronews.com/2025/08/06/ventura-e-rita-matias-vao-ser-alvo-de-inquerito-pelo-ministerio-publico
8. Contexto geral — desinformação em Portugal
“Os corredores da desinformação em Portugal” — TVI Notícias (2021, inclui citação de Mamadou Ba sobre modus operandi) https://tvi.iol.pt/noticias/politica/fake-news/os-corredores-da-desinformacao-em-portugal
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