Foi recentemente publicado o livro “A New Wave of Anti-Racism in Europe? Racialized Minorities at the Centre”, editado por Ilke Adam, Jean Beaman e Mariska Jung (2026), uma obra coletiva que analisa os movimentos antirracistas contemporâneos na Europa a partir das experiências e lideranças de pessoas racializadas.
A publicação inclui o capítulo “Silence does not protect us from racism and violence: telling stories of Afro-Descendants’ collective action in Portugal”, da autoria de Rosana Albuquerque, professora e investigadora da Universidade Aberta e ativista do SOS Racismo. O título foi inspirado por Audre Lorde e a sua reflexão sobre “A transformação do silêncio em linguagem e ação” na obra “Sister Outsider”/”Irmã Marginal”. Neste capítulo, Rosana Albuquerque procura “contar uma história coletiva construída sobre muitas histórias que precisam ser conhecidas e partilhadas, como forma de confrontar o silêncio e a negação do racismo em Portugal, e desejando que esta narrativa permita o reconhecimento das e dos Afrodescendentes como cidadãs/cidadãos e dos seus contributos para os direitos humanos e a democracia em Portugal”.
Uma história construída contra o apagamento e a negação
O capítulo reconstrói uma história longa, contínua e frequentemente silenciada do ativismo antirracista em Portugal, demonstrando que pessoas negras, Afrodescendentes e migrantes sempre foram atores políticos centrais, mesmo quando o Estado português se manteve ausente, indiferente ou hostil às suas reivindicações. Procura-se mostrar como, desde os anos 1980, associações de migrantes e de base comunitária responderam à falta de políticas públicas em áreas como habitação, saúde, trabalho e regularização de documentos. Embora nem sempre nomeado publicamente como tal, o combate ao racismo esteve desde cedo presente nessas práticas quotidianas de resistência e intervenção cívica coletiva.
O assassinato de Alcindo Monteiro e a viragem antirracista dos anos 1990
O capítulo identifica um momento de viragem decisivo em 1995, com o assassinato de Alcindo Monteiro por um grupo de skinheads. Lembra-se que este crime expôs de forma brutal a violência racial em Portugal e rompeu o silêncio político e mediático que até então envolvia o racismo estrutural.
É neste contexto que o SOS Racismo surge como um ator central da luta antirracista em Portugal. O capítulo reconhece explicitamente o papel do SOS Racismo:
- na mobilização pública contra a violência racista;
- na articulação com associações de migrantes, sindicatos e outras organizações de direitos humanos;
- na luta pela criação de legislação contra a discriminação racial;
- e na afirmação do racismo como um problema estrutural e político, e não como um conjunto de episódios isolados, apenas de índole pessoal.
O texto sublinha ainda a importância da Rede Anti-Racista (RAR), dinamizada por várias associações, incluindo o SOS Racismo, como espaço de convergência política que permitiu romper com a negação institucional do racismo e afirmar uma agenda antirracista no espaço público português.

Juventude negra, cultura e consciência política
A autora destaca também o papel das gerações jovens afrodescendentes, em particular a partir dos anos 1990, que trouxeram para o centro do debate público a denúncia do racismo, da violência policial, da exclusão social e da negação da pertença plena à sociedade portuguesa. Procura-se dar destaque às práticas de ativismo cultural —a música, o teatro, a comunicação via plataformas digitais — como formas legítimas de intervenção política e de consciência crítica, muitas vezes desenvolvidas em articulação com o SOS Racismo e outras organizações antirracistas.
Uma viragem decolonial e a atualidade da luta antirracista
A autora identifica uma nova vaga de mobilização antirracista desde o ano de 2015, que revela uma abordagem decolonial ao construir uma ligação direta entre o racismo contemporâneo e os legados do colonialismo e da escravatura, exigindo memória, reconhecimento, justiça e reparação.
A autora mostra como esta nova fase não rompe com o passado, mas se constrói em continuidade com décadas de luta, aprendizagem e resistência, nas quais o SOS Racismo teve — e continua a ter — um papel estruturante na defesa dos direitos humanos, na denúncia da violência racial e na afirmação de uma democracia que só pode existir sem racismo.
Um convite à leitura e à partilha
Este capítulo é um contributo fundamental para compreender o antirracismo em Portugal como um projeto político, histórico e coletivo, construído contra o silêncio, a negação e o apagamento. Como a própria autora sublinha, o silêncio não protege — nem do racismo, nem da violência.
O livro está disponível em acesso aberto, e pode ser descarregado gratuitamente no site da Springer: https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-032-00002-6
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