Na noite de dia 29 de janeiro, um jovem são-tomense de 23 anos foi brutalmente agredido pela polícia no aeroporto de Lisboa. Os agentes pontapearam o seu corpo, inclusive os genitais, bateram com a sua cabeça no chão e atingiram-no com gás lacrimogéneo nos olhos.
Samuel Edi teve de ser assistido no serviço de urgência do Hospital de São José. Neste estabelecimento hospitalar, o jovem relatou as agressões por parte da polícia. Apesar de ter sido dada indicação médica para a realização de um exame adicional, as autoridades insistiram que Samuel teria de voltar de imediato para o aeroporto, já que havia ordem para a sua deportação, e que o exame seria feito no seu país de origem.
De regresso ao aeroporto, o jovem são-tomense lançou vários apelos para que o encaminhassem para uma unidade de saúde. Samuel relatou ter falta de equilíbrio, fortes dores de cabeça, e não ter recuperado completamente a visão. O seu desespero está bastante patente nas mensagens que conseguiu enviar, em alguns períodos de tempo, a familiares que se encontram em Portugal.
Mas, mais uma vez, assistimos à absoluta desumanização e abuso por parte das autoridades a prestar serviço no aeroporto de Lisboa.
Samuel Edi veio para Portugal com um visto consular de curta duração, devidamente emitido pelas autoridades portuguesas em São Tomé e Príncipe. O documento tem validade até meados de março de 2026. O seu intuito passava por realizar uma consulta hospitalar no dia 30 deste mês, tendo, inclusive, apresentado um relatório médico que o justificava. O jovem santomense também já tinha adquirido bilhete de regresso, datado de 15 de fevereiro.
Quando, à chegada a Lisboa, na madrugada de dia 29, lhe foram solicitados documentos e informações adicionais, Samuel e os familiares que se encontram em Portugal rapidamente se prontificaram a apresentar documentação complementar, caso fosse necessário. Perante inúmeros obstáculos e mudança de procedimentos por parte da polícia, a família viu-se obrigada a recorrer a um advogado, que iniciou os contactos com as autoridades para aferir da situação que justificava a detenção.
Alegadamente terá sido a recusa, por parte de Samuel, em entrar para um avião de regresso a São Tomé, antes que os documentos apresentados fossem devidamente analisados, e que houvesse resposta às diligências efetuadas pelo seu advogado, que terá despoletado as agressões atrozes de que foi alvo.
Até ao momento, Samuel Edi continua detido no aeroporto de Lisboa sem saber as razões de facto ou de direito para tal situação. De Portugal, conheceu o aeroporto, o chão onde foi barbaramente agredido, o serviço de urgência hospitalar e, em especial, a ação da polícia.
O SOS Racismo considera inadmissível este tipo de abusos, que se sucedem, contrastando com o “humanismo”, tão propagado pelo Governo português, sobre a atuação das forças de segurança.
Samuel foi recebido ao pontapé e ainda está vivo, ao contrário de outras pessoas que perderam a vida à guarda do Estado. Temos bem presente a morte de Ilhor Homeniuk, cidadão ucraniano, assassinado no mesmo local onde Samuel foi espancado, e recusamos sentenças de morte impostas pelas autoridades portuguesas.
Não podemos continuar a permitir que situações como estas sejam branqueadas, que as suas vítimas sejam invisibilizadas, que não se apurem responsabilidades e que os responsáveis não sejam, efetivamente, punidos. O Ministério da Administração Interna deve abrir imediatamente um inquérito aos factos que aqui se denunciam, preservando desde já os registos do sistema de videovigilância de todas as áreas onde Samuel se encontrou, para efeitos de prova.
A recuperação total do estado de saúde de Samuel Edi, é uma responsabilidade de Portugal, que deve receber apoio psicológico e ser novamente observado no hospital.
As polícias não existem para aumentar as estatísticas da criminalidade. Não aceitaremos nenhuma justificação para o apagamento das imagens do sistema de videovigilância.
Temos de acabar com a impunidade!
SOS Racismo, 31 de janeiro de 2026
Publicações Mais Recentes
No dia 16 de março, uma publicação circulou nas redes sociais com uma citação atribuída a Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, descrita como “comentário…
CAMPANHA “JÁ NÃO HÁ TEMPO PARA O RACISMO” (2026) No âmbito do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, assinalado a 21 de março,…
No dia 21 de Março cruzam-se duas lutas que são inseparáveis: o direito à habitação e o combate ao racismo estrutural. Em Portugal, as manifestações…
Em janeiro de 2026, o Ministério Público arquivou o inquérito aberto na sequência de mais de meia centena de queixas contra os cartazes de campanha…